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Capital baiana tem a maior em população quilombola no país, diz IBGE

A Bahia abriga maior quantidade de quilombolas

Por: Profº Nicanor Fonte: atarde.com
29/07/2023 às 07h32 Atualizada em 29/07/2023 às 16h31
Capital baiana tem a maior em população quilombola no país, diz IBGE
reprodução

Depois de 150 anos de recenseamentos nacionais, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) incluiu a auto identificação quilombola como uma variável de investigação, em 2022, apresentando os primeiros números oficiais da população na história ontem. A partir dos dados, Salvador é a capital com a maior população quilombola do país, com 15.897 pessoas, e a Bahia é o estado com mais pessoas do grupo, com 397.059.

No Brasil, mais de 1,3 milhão de pessoas se autodeclararam quilombolas, cerca de 0,65% da população total. A Bahia, onde 73% dos municípios tem a população, também é o estado com o maior número de domicílios particulares permanentes ocupados com ao menos uma pessoa quilombola (149.287). O estado, com 2,81%, fica atrás em termos relativos apenas do Maranhão, onde os quilombolas são 3,97% da população.

Com o tema “Brasil Quilombola: Quantos somos? Onde estamos?", a iniciativa e os primeiros resultados são comemorados

“Esses dados são bastante significativos. É importante lembrar que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão e que só tardiamente tem se comprometido com políticas de ação afirmativa e de reparação. Portanto, a apresentação desses dados mostra que precisamos de comprometimento não apenas com o reconhecimento e a delimitação de territórios oficiais, mas, sobretudo, reconhecer o abismo socioeconômico e histórico sobre essas comunidades”, pontua a antropóloga e coordenadora do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Jamile Borges.

Dentre as cidades do estado que possui 2,81% da sua população como quilombola, Salvador é a segunda, atrás de Senhor do Bonfim, com 15.999 pessoas. 

Destaque

O município de Bonito foi o único representante baiano a figurar entre as dez cidades do país com as maiores proporções dos autodeclarados no 5º lugar com 50,28%. No entanto, a Bahia tem o terceiro menor percentual de quilombolas residindo em áreas oficialmente delimitadas do Brasil, com 5,23% dos quilombolas nos 48 territórios.

O município de Bom Jesus da Lapa é o destaque com o maior número absoluto neste quesito com 3.757 quilombolas e Malhada em termos relativos com 82,38% do grupo em territórios formalizados. 

Já Tijuaçu, entre os municípios de Senhor do Bonfim, Filadélfia e Antônio Gonçalves, contabiliza a maior população de quilombolas em áreas com delimitação, com 2.865 pessoas.

Com o objetivo de pressionar o poder público a se comprometer e formular políticas públicas que incorporem os quilombolas, suas demandas e reivindicações, Jamile lembra que as comunidades, historicamente, sempre estiveram à margem do acesso às políticas, aos bens de consumo, aos bens de capital, à educação, à saúde e à segurança alimentar. 

“Eles ficaram, historicamente, distantes do direito à sua terra, uma luta antiga para os quilombolas, os indígenas e os aldeados também contra o apagamento da sua existência. Este é o momento de reconhecimento do Brasil consigo mesmo e com sua dívida histórica”, finaliza Jamile.

 

Reconhecimento

Na capital baiana, de acordo com um mapeamento realizado pela Fundação Cultural Palmares, sete quilombos são reconhecidos e certificados: Alto do Tororó, Bananeiras, Maracanã, Praia Grande, Passa Cavalo, Martelo e Ponta Grossa. 

Um dos de maior representatividade é o Alto do Tororó, em São Tomé de Paripe, onde moram cerca de 1500 pessoas divididas em 350 famílias, segundo Maria Lourdes Marques, nascida no quilombo de cerca de 300 anos.

Ela relata que seus familiares sempre moraram ali também. No local realizam atividades como pesca, colheita de plantas e raízes. 

O resgate histórico e cultural também acontece com festas como do Boi-bumbá, do Samba do Criola, das Matriarcas Mirins, do Maculelê, do Samba de Roda e da Festa do Pescador.

“O IBGE mostra nossa cara. Hoje, não somos mais invisíveis. O quilombola tem raiz e história, como o quilombo Alto do Tororó, que é resistência e legado deixado por nossos antepassados, recontando as histórias que nossos pais falavam neste lugar. Não podemos perder essa tradição para que os filhos dos filhos dos nossos filhos saibam quem fomos nós”, comenta Maria Lourdes Marques.

Adversidades

No entanto, o grupo também passa por dificuldades. “É complicado. Derrubaram quatro hectares de mangue para fazer uma estrada. Nós estamos trabalhando com a manipulação de alimentos para complementar nossa renda. Nosso território é imenso, mas não podemos plantar e o acesso ao mar vai ser por um portão mediante identificação. Somos uma comunidade que está vivendo espremida e oprimida. Com o trabalho realizado pelo IBGE, teremos maior visibilidade sobre nós e sobre o que precisamos. Nós continuamos resistindo para poder continuar existindo”, pontua Fátima Lima, pescadora, marisqueira e quilombola.

O lugar é afetuoso para a integrante mais velha do grupo, com 76 anos, Elizete Maria, que junto com suas irmãs, Elísia Maria e Alice Maria, são conhecidas como as Três Marias na região. 

“Meu pai era pescador e nos colocou na pescaria. Quando a Marinha chegou aqui, nossos antepassados já estavam. Eu faço isso para sobreviver desde os meus dez anos. Jamais quero sair daqui”, finaliza.

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