
Pequenos ou grandes, animais são alvo frequente de atropelamentos nas estradas brasileiras. Para se ter uma ideia, estudo da UFLA (Universidade Federal de Lavras) estima que a cada segundo 17 animais vertebrados morrem atropelados nas rodovias do país.
Com uma malha rodoviária de cerca de 1,7 milhão de quilômetros, segundo levantamento da CNT (Confederação Nacional do Transporte), o Brasil é um dos países do mundo que mais registra atropelamentos de animais.
De olho em frear essa tragédia, tem crescido no país campanhas ambientais para diminuir a incidência de colisões envolvendo veículos e animais…
No rol de alternativas já implantadas estão:
passagens de fauna, em forma de túneis ou viadutos;
cercamento de vias;
implantação de sistemas de alerta ao motorista por meio de aplicativo…
Mariana Catapani, coordenadora de coexistência humano-fauna do Icas (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) é uma das brasileiras que tem buscado conter os constantes atropelamentos de animais na BR-262.
A rodovia que cruza o país de leste a oeste, atravessando Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul é conhecida por abrigar em suas margens carcaças e ossadas de tamanduás-bandeira, cachorros-do-mato, antas, tatus e até onças.
Para se ter uma ideia, levantamento do instituto contabilizou, entre 2017 e 2020, 7.942 animais mortos em apenas 500 quilômetros da BR-262 —entre a ponte no rio Paraguai e Água Clara (MS). Uma média de cinco mortes de animais por dia
A pedido de Ecoa, Bager elencou as sete rodovias com maior índice de registros de atropelamentos de animais:
1) BR-110 - Dois trechos dessa via que merecem atenção redobrada dos motoristas é o próximo a São Sebastião do Passé e Alagoinhas, ambos na Bahia.
2) BR-101 - O trecho da rodovia próximo da Reserva Biológica Sooretama, no Espírito Santo, é um dos que mais registra atropelamentos de animais… - Veja mais em
3) BR-471 - Localizada no extremo Sul do Brasil, o trecho que mais requer atenção do motorista para risco de acidentes com animais é entre Pelotas e Chuí, no Rio Grande do Sul.
4) BR-262 - A rodovia requer atenção do motorista principalmente no trecho entre Três Lagoas e Corumbá, no Mato Grosso do Sul.
5) BR-163 - Segundo pesquisadores, o risco de atropelamento se concentra em todo o trecho da rodovia que liga duas capitais do Centro-Oeste brasileiro: Campo Grande (MS) e Cuiabá (MT).
6) BR-153 - O maior risco de acidente com animais é no trecho entre Araguaína (TO) até Marabá (PA)…
7) MS-040 - A rodovia estadual, entre Brasilândia e Santa Rita do Pardo, ambos municípios do Mato Grosso Sul, também aparece na lista das rodovias mais perigosas para sofrer acidentes com animais.
Impacto das rodovias para a fauna
Atropelamento - os atropelamentos são apontados como o principal impacto causado pelas rodovias próximas de áreas de vegetação. Estudo aponta que cerca de 475 milhões de animais morrem atropelados por ano no Brasil… -
Perda de habitat - muitas espécies deixam de atravessar a rodovia por medo, o que ocasiona redução na movimentação de indivíduos entre os habitats e do fluxo gênico, gerando perda de diversidade genética em regiões próximas de estradas.
Ruídos - estudos mostram que os ruídos das rodovias impactam na comunicação e reprodução de aves e anfíbios. Isso porque muitos animais dependem da vocalização para se reproduzir.
Iluminação - as luzes dos carros, principalmente no período noturno, podem atrair diversas formas de fauna para as margens da rodovia, aumentando o risco de atropelamento…
Descarte de lixo - animais carniceiros são atraídos para a rodovia para se alimentar de carcaças de animais mortos, bem como do lixo descartado pelos usuários às margens da rodovia, podendo se tornar vítimas de acidentes.
A preocupação dos impactos da malha viária sobre a vida selvagem começou na década de 70. No entanto, foi apenas em 1998 que o termo "ecologia na estrada" se disseminou por influência do ecologista norte-americano Richard T. T. Forman… No Brasil, as primeiras medidas de mitigação nas rodovias passaram a ser implantadas apenas no início dos anos 2000, quando os primeiros contratos de licenciamento ambiental de estradas passaram a exigir das concessionárias a implantação de medidas para conter o risco à fauna.
Cada vez mais estão sendo implantadas estruturas de mitigação e, de maneira geral, a sociedade e as gestoras de rodovias estão mais preocupadas com essa questão. Contudo, apesar desses avanços animadores, ainda temos um longo caminho a percorrer em comparação com outros países.
Erica Naomi Saito, bióloga e diretora presidente da Reet Brasil (Rede Brasileira de Especialistas em Ecologia de Transportes)… -