
Jair Bolsonaro parece já ter realizado a contabilidade da perda. Como diz a coluna de Thaís Oyama hoje, já se conformou com uma derrota no TSE e começa a traçar sua estratégia a partir disso, contando como fato certo.
Há uma diferença brutal entre a derrota de Bolsonaro nos tribunais e o fim do bolsonarismo. Nos últimos tempos, a verborragia violenta do ex-presidente foi substituída por silêncio e, quando muito, manifestações absolutamente protocolares. Perguntado sobre a indicação de Christiano Zanin ao STF, surpreendeu dizendo apenas que é prerrogativa do presidente da República.
Teóricos da conspiração diriam que o verdadeiro Bolsonaro foi abduzido e o que está no lugar é um sósia. Mas não é ele o único envolvido em evitar atritos com o Judiciário justamente às vésperas do julgamento, marcado para o próximo dia 22 de junho.
A base bolsonarista sofreu um racha entre quem precisa de voto popular e quem precisa tão somente da bênção de Bolsonaro para existir no espaço público.
Dois dos deputados mais bolsonaristas e verborrágicos, Nikolas Ferreira e Carlos Jordi, foram duramente atacados pela máquina de influencers do bolsonarismo.
Obviamente os dois se posicionaram contra a indicação de Zanin para o STF, como espera a base eleitoral deles.
Aqui não se trata nem de analisar a indicação em si, mas de uma lógica muito simples nos tempos de polarização tóxica que vivemos hoje: se Lula é a favor, eles são contra.
Isso vale para absolutamente todas as coisas. Se Lula for a favor de distribuir dinheiro, eles são contra. Se for a favor da cura do câncer, eles são contra. Se for a favor da paz mundial, eles são contra.
Como justificar? Simples, os fatos objetivos não importam, o que importa é o pertencimento ao grupo, amalgamado em torno da oposição à agenda do petismo.
Geralmente são criadas narrativas em que a cura do câncer, por exemplo, seria apenas uma operação de fachada para criar males muito piores. A paz mundial, em outra narrativa, poderia ser uma mensagem cifrada para significar a dominação comunista de todas vontades individuais.
Ocorre que os influencers bolsonaristas precisam de outra narrativa, uma que evite atritos entre o Judiciário e seu amo. Por isso, diversos deles argumentam que Zanin é conservador e benéfico para o grupo. Tentam convencer os próprios seguidores de que só dessa vez Lula acertou.
Parece patético e infrutífero, mas não é. Já não falamos mais de lógica ou disputa pela verdade. Discutimos o pertencimento ao grupo, que se consolida fazendo o discurso "certo".
Mais pessoas embarcarão nessa se tiverem a oportunidade de massacrar alguém pelo caminho, sentir o deleite do prazer mórbido e evitar as consequências por meio de uma justificativa moral. Os influencers oferecem deputados de bandeja para a arena romana e, assim, conseguem certa aderência.
Jair Bolsonaro se tornou, em 2014, líder de um grupo que já existia e defensor de ideias que estavam à deriva sem um rosto - não eram necessariamente as dele.
Naquela época, se imaginava que o petismo havia desmoronado com a prisão de Lula. O mundo político subestimou o poder da combinação entre o radicalismo de um lado e o vitimismo de outro.
A atuação do governo bolsonaro se combinou com uma das mais poderosas armas da era das redes sociais, interpretar o papel de vítima.
Com esse capital aliado à sua história política e sua habilidade, Lula deu uma volta por cima tão grande que seria considerada forçada em cinema. A situação está prestes a se inverter, com Bolsonaro se colocando como vítima.
Forças populistas no Brasil morrem de inanição, como o malufismo. Com Jair Bolsonaro condenado, podem morrer candidaturas dele nos próximos anos. O bolsonarismo, no entanto, continuará sendo alimentado diariamente.