
É provável que Nina Paterson (1871-1954) tenha dito algo parecido quando o marido, o explorador inglês Percival Harrison Fawcett (1867-1925), anunciou que ia sair em missão à procura de uma civilização perdida no Brasil — os dois se conheceram no Ceilão, atual Sri Lanka, onde Percy serviu como oficial da Artilharia Real britânica.
Não seria a primeira vez que ele viajaria para a América do Sul. Mas, dessa vez, poderia ficar até dois anos longe de casa.
A primeira expedição de Percy Fawcett pelo continente sul-americano ocorreu em 1906, quando ele foi designado pela Sociedade Geográfica Real inglesa a demarcar a Amazônia, na fronteira entre o Brasil, a Bolívia e o Peru.
Em fevereiro de 1920, ele desembarcou no Rio de Janeiro para uma expedição que, no fim das contas, durou apenas quatro meses, de agosto a dezembro daquele ano. Enquanto estava no Brasil, Nina, sua mulher, e os três filhos do casal, Jack, Brian e Joan, viveram na Jamaica.
Assim que chegou, Fawcett foi recebido pelo presidente da República, Epitácio Pessoa (1865-1942), que agendou uma reunião com o Marechal Cândido Rondon (1865-1958). O encontro foi desastroso.
Rondon disse que o Brasil não precisava de estrangeiros para fazer expedições. O presidente ponderou que estava atendendo a um pedido do embaixador inglês, Ralph Paget, para apoiar Fawcett em sua viagem até o Mato Grosso. Rondon, então, sugeriu que Fawcett fosse acompanhado por uma comitiva brasileira. O inglês recusou a oferta: "Pretendo ir sozinho", avisou. "Uma viagem com muita gente tem os seus inconvenientes".
O marechal não desistiu. Sugeriu que o coronel estrangeiro fosse acompanhado por um civil ou militar da confiança do governo brasileiro. Não houve acordo. Se não pudesse ir sozinho, avisou Fawcett, não iria.
A essa altura, Rondon já estava desconfiado de que, mais do que uma civilização perdida, o inglês estava à procura de ouro e prata. Lá pelas tantas, perguntou o percurso que Fawcett pretendia fazer. Sua resposta — "é sigiloso, não posso revelar" — deu por encerrada a conversa. "Faço votos para que tenha boa sorte", e Rondon se despediu.